O bom jeitinho brasileiro – entrevista

brasil.jpgNa semana passada fui entrevistado pela Lívia Zampirole do Jornal Estaciente (JE) da Faculdade Estácio de Sá em Niterói, RJ. O assunto foi um post que escrevi em 20 de junho sobre um programa do Canal Futura ilustrando os malabarismos de pessoas comuns pra garantir o pão de cada dia sem roubar, trapacear ou usar dinheiro público pra se dar bem na vida. Enfim, O LADO BOM DO JEITINHO BRASILEIRO.

Confira a entrevista: 

(JE) Quais são os exemplos mais comuns do jeitinho brasileiro?

Jeitinho é o que chamamos essa flexibilidade do brasileiro para lidar com as regras, desafios e desigualdades que ele enfrenta todo dia. O jeitinho é patrimônio nacional e está presente na forma como o trabalhador informal tem jogo de cintura pra sustentar a família, na ginga das empresas ao contratar office-boys sexagenários como forma de se beneficiar da legislação e driblar as filas dos bancos, ou até na pior forma de jeitinho que é a que remete às práticas de suborno ou proveito de qualquer vantagem indevida para se obter benefícios.

(JE) É só no Brasil que isso acontece?

Se dermos uma olhada em como a nossa sociedade se formou e em como ela funciona, veremos que no Brasil os laços familiares e as relações de amizade são fundamentais para que seja possível ganhar o perdão de uma multa, passar na frente da fila ou conquistar um cargo em um orgão público – as regras acabam sendo ignoradas em favor da amizade. A aversão que temos à formalidade é outra característica: no dia a dia, por exemplo, nomeamos colegas de trabalho e até mesmo clientes com apelidos ou diminutivos (inho/a). No ambiente de negócios acaba existindo a preocupação de fazer com que a amizade adquira uma importância muito grande, algo totalmente incomum em países que prezam pela objetividade nas relações comerciais. Neste aspecto, levando-se em consideração a peculiaridade da nossa formação, somos ímpares no mundo.

(JE) Essas práticas só acarretam prejuízos ou não, por que?

É importante não estereotiparmos o “jeitinho” como algo unicamente ruim. O jeitinho tá no DNA cultural do Brasil e é uma forma interessante de fazer mais com menos e de ter a flexibilidade necessária para lidar com situações novas, algo por sinal, muito valorizado no mundo moderno. Eu diria que a parte em que isso nos traz um imenso malefício é quando nos referimos às práticas desonestas que quebram as regras, ativam a corrupção e causam prejuízos morais que acabam sendo absorvidos pela sociedade como sendo algo “normal” já que a prática se torna comum.

(JE) A impunidade faz com que as pessoas que gostam de seguir as regras sejam vistas de forma distorcida?

É certo que sim. O fato de a sociedade absorver certas práticas como algo que “faz parte do jogo” contribui para que a população tenha uma “indignação passiva” incapaz de gerar algum tipo de mobilização ou de mudar o comportamento das pessoas que se sentem indignadas. Num ambiente desses, qualquer pessoa que queira fazer a coisa certa vai se sentir exceção e vai trazer um desconforto grande pra sociedade.

(JE) O jeitinho brasileiro contribui para o não cumprimento das leis?

O mau jeitinho sem dúvida contribui. Ele existe pra driblar a regra, pra gerar favorecimentos e pra criar exceções. Se a lei que é criada pra regular as práticas e igualar os cidadãos não é respeitada, toda a expectativa criada em torno de uma maior justiça social fica comprometida.

(JE) E por falar em leis, aqui no Brasil, elas são coerentes com o modo de viver, com a cultura?

O problema está muito menos nas leis e muito mais no brasileiro. Se a cultura da indisciplina, do favorecimento ilícito e da falta de ética é aceita pelo senso comum da população é pouco provável que se consigam fazer leis adequadas a essa realidade. É um grande erro pensar que o exemplo deva vir de cima antes de começarmos a agir. Cabe a cada brasileiro individualmente a responsabilidade ética pela construção de um país diferente.

7 respostas para O bom jeitinho brasileiro – entrevista

  1. […] entrevista que eu dei ao Jornal Estaciente do Rio em fevereiro/08 tá sendo recomendada como leitura adicional […]

  2. […] – já havíamos passado pela suposta curva quando vimos mais amigos nossos no fim da fila. Como bom brasileiro, chamei-os para furá-la e vendemos nosso rim para comprar o ingresso. Entramos e, como de praxe, […]

  3. Rose disse:

    O jeitinho brasileiro condiz com a falta de organização dos orgãos públicos e que também há muita gente de índole ruim. Deixar de pagar luz e água para fazer ”gatos” é um grande desrespeito para moradores que pagam corretamente e o mesmo se atrasar uma ou duas contas por acontecer de ficar desempregado ou morte na família, as empresas não querem nem saber; e o histórico de um bom pagador? E por quê não avaliar e punir estas pessoas que continuam desrespeitando a lei? É um absurdo esta política de propinas, enganação e do cafezinho… O mais ruim é que os estrangeiros já rotulam os brasileiros de desonestos.

  4. Sofia disse:

    Muitas pessoas condenam o jeitinho brasileiro, mas não se policia e acaba participando disso sem perceber.

  5. Ageu Souza disse:

    Eu acredito que o jeitinho brasileiro é a quebra de regras a onde não tem regras , e esse jeitinho está arraigado em toda sociedade.. temos o caso do mensaão…..e o individuo nao respeitando sinal de transito e furando fila e etc….

  6. Beto Castro disse:

    leiam “A Filksofia do Jeito” de Fernanda Carlos Borges, filósofa, põs doutora para aprofundar a questão. Editora Summus.

  7. Beto Castro disse:

    A Filosofia do Jeito é um livro espetacular, embasado, profundo, que vai às raízes da cultura e do comportamento brasileiro.

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