Negócio paralelo

Por Bob Wollheim* Entrevistas a Mauro Cezar Pereira

(Revista VENCER Ed. 74)

Quem não tem um amigo ou parente que trabalha numa grande multinacional mas, com um colega, a mulher ou mesmo sozinho, possui um pequeno negócio paralelo, levante a mão! Garanto que serão poucos os braços levantados, pois essa é uma tendência cada vez mais comum num mundo repleto de incertezas, de um lado, e de oportunidades, de outro.
Não dá pra achar que um bom emprego durará para sempre, diriam alguns. A partir dos 40 anos, a vida profissional fica cada mais complicada, restrita e afunilada, alertariam outros. Existem tantas oportunidades, franquias, novas áreas, novas tecnologias, que não dá pra ficar de fora, provocariam os mais otimistas.
Seja qual for o motivo – e ele pode ser (e de fato muitas vezes é) a busca por fazer algo de que se gosta de verdade –, cada vez mais profissionais têm o seu negócio paralelo, tocado à noite e nos finais de semana ou dividido com um sócio que fica com as responsabilidades do dia-a-dia. Trata-se de uma tendência que me parece irreversível, uma vez que os bons empregos estão mais raros. As pessoas querem se preparar para a fatalidade. E, é importante lembrar, empreender um “side business” enquanto se está empregado pode ser uma saída muito inteligente. Minimizam-se os riscos, mantém-se uma fonte de renda (e de capital para o negócio), e é possível fazer uma transição mais suave de uma vida para outra, entre outras vantagens. A desvantagem? O fato de se tocar algo em paralelo faz com que não possamos dar 100% de nós mesmos ao negócio e muitos deles não sobrevivem sem esses 100%.
É muito comum também o “side business” ser exatamente o hobby, a paixão ou a realização do sonho do executivo ou da executiva e isso é muito interessante e gera resultados muito positivos. Recentemente abordamos o assunto nesta coluna. Fazer o que se gosta dá muito certo e cada vez mais pessoas estão se lançando nesse caminho. E, começar como “side business” pode ser um belo jeito de se iniciar um negócio, navegando mais suavemente pelas águas turbulentas do empreendedorismo, para garantir uma fonte de capital ao negócio, acostumando-se com a nova atividade (ou vida) e, ainda, conseguindo manter a ansiedade sob controle.
Há risco? Sim, o de ambas as vidas profissionais irem mal por falta de foco, objetividade e por você misturar todas as estações. É preciso cuidado e disciplina para que isso não aconteça e evitar que seu novo negócio paralelo não atrapalhe sua atividade principal, seja ela qual for.
Com esse cuidado em mente, está aí uma ótima fórmula para começar um empreendimento e se realizar como pessoa! Para entender melhor o processo, conversamos com alguns empreendedores que tocam seus negócios em paralelo às atividades principais. Confira a seguir os depoimentos de cada um.


José Augusto Rodrigues dos Santos, há 13 anos é executivo da Martin-Brower, empresa que presta serviços no controle da cadeia de suprimentos, e há um ano e meio tornou-se franqueado da escola Seven Idiomas:

Em minha atividade paralela, atuo mais na tomada de decisões, ou quando minha mulher, Lúcia, que se encarrega do dia-a-dia, necessita de apoio, especialmente nas questões financeiras ou de recursos humanos. Trabalho na Seven Idiomas à noite e durante os finais de semana. Mas essa rotina era mais forte no início, quando adquirimos a escola. Hoje, procuro me manter atualizado com tudo o que ocorre por meio de e-mail. Além disso, toda noite eu e a Lúcia conversamos sobre a escola. É como se cada jantar fosse uma reunião de diretoria.
A compra da escola deixou minha vida mais agitada, porém, me organizo para não perder o senso de prioridade. Tem sido interessante profissionalmente e acredito que isso ajude a reduzir meu estresse. Minha vida mudou. Reduzi o tempo de televisão e de descanso em casa e substituí por atividades mais produtivas e desafiadoras. Vejo diversos ganhos. Sob o ponto de vista econômico, espero obter dinheiro e ter segurança no futuro, mesmo tendo consciência do risco inerente a qualquer atividade empresarial. Já sob a ótica social, é muito bom saber que nossa atuação está gerando empregos.
E a vida familiar? Não deixei de dar atenção à minha família por causa da escola. Hoje é raro ter que gastar muito tempo trabalhando nos finais de semana. Eu e minha esposa entramos no negócio com muita seriedade e queremos vê-lo crescer. O vírus do empreendedorismo vai se alastrar quanto mais as pessoas perceberam que não devem depender do paternalismo do governo.

Paulo Bastos e Ricardo Wohnrath, executivos da 3Com desde 2004 e sócios em uma oficina de carros.

Somos sócios capitalistas e o terceiro sócio, Reinaldo, é quem realmente toca a oficina. Para mim, essa atividade é uma forma de descarregar o estresse acumulado da semana e, obviamente, uma forma de praticar o gosto por carros antigos. A prova de arrancada do Campeonato Paulista, realizada em um domingo por mês, no autódromo Interlagos, por exemplo, gera um movimento impressionante de carros para serem preparados. Com isso, uma rentabilidade bem expressiva. Trabalhamos também na revisão de automóveis convencionais no dia-a-dia.
Esse é um projeto definitivo para todos os sócios. Um deles, o Reinaldo, sobrevive deste negócio. Ele já tinha uma oficina menor na garagem de casa e, com a sociedade, quadruplicou o seu capital. Empregamos mais dois mecânicos e o investimento que fizemos se pagou em cinco meses. Hoje, a oficina já está gerando lucro e planejamos ir para um lugar maior devido à demanda.
Veja que é uma tendência dos profissionais da área de TI procurarem uma atividade que ajude a combater o estresse. Ter uma segunda atividade é uma tendência.

Marco Suplicy, fazendeiro de café e, desde 2002, dono da Suplicy Cafés Especiais, em São Paulo.

Na realidade, minhas duas atividades profissionais são complementares. Além de sócio de cafeteria, sou produtor de café. Hoje, com mais de dois anos desde a abertura da primeira loja, a rotina de ambos os negócios está equacionada. Há, durante a colheita (maio a setembro), uma maior atenção à fazenda, pois o número de funcionários safristas excede os regulares. Não deixo de fazer nada por causa disso e sinto uma gratificação pessoal e profissional por um trabalho bem-feito.
O fato de me dedicar a duas atividades diferentes não interferiu em minhas relações familiares. Dou a mesma atenção que daria, independentemente da minha atividade, e ainda sobra tempo para fazer outras coisas, ler e me divertir. Esse é um projeto definitivo de vida. Penso ser uma questão de disciplina e organização de cada um. No empreendedorismo, acho que mais profissionais seguirão esse caminho. Tenho certeza absoluta disso.

Gelma Franco, publicitária e dona da cafeteria Il Barista, em São Paulo.

Para conciliar mais de uma atividade profissional só tendo muita paixão e determinação pelo trabalho. E, para funcionar bem, no dia-a-dia, precisei me desdobrar e me policiar para não perder o foco nas minhas atividades e ficar mais atenta aos horários. Há momentos em que sinto falta de ter um tempo só para mim. Mas ganho conhecimento e realização pessoal.
Tento me transformar em uma supermulher e supermãe, dedicando um tempo maior às pessoas que amo. Passei a curtir mais minhas horas de folga e a valorizá-las também.
O Il Barista Cafés Especiais é o meu projeto de vida. Dedico-me com afinco e paixão todos os dias para oferecer os melhores cafés aos meus clientes. Mas para dar certo, em primeiro lugar dependo da minha estrutura familiar, do apoio do meu marido e dos meus filhos. É meu maior alicerce e a pedra fundamental para o meu sucesso. Depois, graças à tecnologia, fica fácil administrar à distância quando não se pode acompanhar tudo ao mesmo tempo.
Hoje, acho que a grande maioria das pessoas termina uma faculdade sem muitas esperanças de sucesso naquela determinada profissão. Então começam a trabalhar em um projeto qualquer, ou entram na fila da loteria da vida. O grande segredo de conseguir conciliar duas profissões é estar feliz consigo mesmo e buscar o equilíbrio. Sempre!”

Uma resposta para Negócio paralelo

  1. Anon disse:

    Recentemente embarquei nessa de empreender enquanto estava empregado. Porém não consegui conciliar o emprego principal com a atividade fora: era muito puxado, exigia muito cérebro, e no final do dia eu estava cada vez mais exausto.

    Então abri o jogo na empresa, dizendo que tinha um negócio paralelo e que pretendia reduzir a carga horária, para conseguir manter as duas atividades (mesmo que reduzindo a renda no emprego principal).

    O resultado foi que o diretor da empresa achou inadimissível tocar um projeto em paralelo, e eu fui demitido.

    Então, para aqueles que pretendem seguir esse caminho, muito cuidado: nem todo mundo (principalmente diretores) são liberais a ponto de concordar com essa postura.

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